Artigo sobre Paranapiacaba baseado no texto Não-Lugar de Marc Augê
Construída para abrigar os trabalhadores da estrada de ferro São Paulo Railway em 1867, que liga São Paulo ao litoral do estado, a Vila de Paranapiacaba é hoje um centro turístico, um local onde o antigo, ou o histórico, ainda pode ser encontrado e comercializado.
Caracterizada pelas suas construções antigas que mesclam origens inglesas e brasileiras, as casas foram construídas com as sobras dos metais utilizados nos vagões, e por isso, geralmente, possuem um tom avermelhado, semelhante aos vagões daquela época.
A cidade em si é antiga, velha, respira ainda um ar do passado, mas será que ela pode, e deve, ser considerada um lugar? As residências antigas, a igreja, o cemitério, as ruas sem calçamento, tudo isso nos remete ao passado, consequentemente, a um lugar, não?
A descrição simples e romântica nos remete à vila do passado, e em um primeiro momento, aquela transpiração nos consome. Não vemos carros, hotéis e nem produtos industrializados. Mas, é claro, sabemos que não esta romanticidade não é verdadeira. Apesar das antigas linhas de transmissão e da antiga fonte de abastecimento do vilarejo, é óbvio que para gerir aquele espaço são necessários novos fios, novas redes de esgoto e de água, além do acesso a automóveis. “Os não-lugares, contudo, são a medida da época: medida qualificável e que se poderia tomar somando, mediante, algumas conversões entre superfície, volume e distância, as vias férreas, ferroviárias, rodoviárias e os móveis considerados meios de transporte (aviões, trens, ônibus)”. (Augé, Marc, Não-Lugares, pag.74)
Analisando desta maneira fica claro que Paranapiacaba não é um lugar. Aliás, ela não é um lugar há muito tempo. O tempo, as mudanças, as pessoas, o mundo, todos os fatores a definiram como um não-lugar. Como disse Michel de Certeau “o não-lugar é uma ausência do lugar em si mesmo”, e não é verdade?
Paranapiacaba é ligada apenas por uma estrada asfaltada. Mas como antigamente, em sua fundação, não havia nenhuma, algo naquele espaço já foi alterado. Outro modo de chegar lá é por trem. Pode-se sair de São Paulo, da Luz, andar aproximadamente uma hora e pronto, Bem Vindos a Paranapiacaba. Estes novos meios de transporte facilitam a chegada e a saída do local, tornando-o assim, um local descaracterizado, ou apenas um não-lugar.
As facilidades para se chegar aumentaram, mas mesmo assim ela parou no tempo, não conseguiu conciliar o novo e o velho. A ferrovia do século XIX e seus trens são apenas enfeites e marionetes. Não exercem função alguma, a não ser míseros ingressos para um passeio. As antigas residências, mesmo que sem permissão para serem modificadas, já tiveram seu acabamento interno todo alterado, e pouco lembram as casas dos antigos operários.
Os moradores que ali residem se sustentam através do comércio e do turismo. A falta de emprego e de perspectiva faz a maioria fugir dali, os obriga a mudar para os grandes centros urbanos, deixando para trás toda a história de seus antepassados.
Esta movimentação é mais um fator que influencia na criação do não-lugar, que pode ser definido como “o espaço extraterrestre para uma comunicação tão estranha que muitas vezes só põe o indivíduo em contato com uma outra imagem de si mesmo”.( Augé, Marc, Não-Lugares, pag.75)
Paranapiacaba não sobreviverá ao predador chamado futuro. Por enquanto, a vila se sustenta em palavras, livros e principalmente nas histórias contadas pelos poucos “loucos” que lá residem. Certamente, com a chegada de um messias chamado desenvolvimento, o lugar dará seus últimos suspiros na UTI, abrindo assim as portas para uma fusão, um emaranhado de sentidos chamado não-lugar.